Escuta, Validação e História de Vida
Há anos eu escuto as mesmas histórias dos meus sogros. Fingir que é a primeira vez virou um gesto consciente, uma maneira de validá-los como sujeitos e dar existência àquilo que para eles ainda precisa ser dito. No processo de envelhecimento, o idoso busca rever a sua própria história de vida contando por diversas vezes a mesma história, revendo o seu passado e revisitando a sua trajetória de vida.
A repetição pode vir como uma abertura para que o processo de elaboração aconteça. Quando os meus sogros repetem as mesmas histórias, trata-se de um convite do inconsciente para trabalhar suas memórias e ressignificar suas vivências passadas; é um bom caminho para lidar com o processo de finitude e elaboração daquilo que ainda precisa ser dito e ressignificado.
Erikson, na oitava fase do desenvolvimento psicossocial que acontece na velhice, trata de: Integridade x Desespero, onde o idoso busca o seu processo de integridade do ego. É quando o idoso olha para a sua própria história e, de certa forma, reconhece em sua trajetória de vida seus erros e acertos, tem uma boa aceitação e convive bem com isso; e não tem nada a ver com ter vivido uma vida perfeita, trata-se de aceitação de erros e acertos como parte de sua história, gerando sabedoria, serenidade e menos medo da morte. Já o desespero aparece quando a pessoa sente sentimentos de arrependimentos excessivos, que perdeu muito tempo da sua vida ou que não há mais tempo para nada, trazendo um aumento do medo de morrer. Oferecer ao idoso a nossa escuta de forma genuína gera um ambiente de suporte emocional, e permitir ao idoso falar como se fosse a primeira vez proporciona a ele existir como sujeito e trazer à tona o que ainda precisa ser dito, além de validá-lo como sujeito.
Essas revisões das falas e histórias, como um trabalho psíquico, atuam como uma ferramenta que permite integrar sua existência, não porque necessariamente esqueceram o que contaram, e sim porque estão repetindo como uma possível tentativa de integrar esses fragmentos de histórias como parte de um todo da sua própria existência. Essas falas que retornam ao passado e histórias já contadas podem reconciliar conflitos internos antigos e, ao contar de novo, a história se abre a uma nova oportunidade para um novo sentido, ou para dar uma nova cor a talvez um discurso que antes era doloroso (como, por exemplo, um luto), possibilitando transformar o desespero em integridade, como proposto por Erik Erikson. Não se trata apenas de histórias repetidas; é uma forma de ressignificação do que ainda existe ali. Quando eu ofereço a minha escuta, vem junto um arrimo para que suas narrativas de vida alcancem sua integridade; logo, a repetição vira sentido dentro de uma existência.
Camila Rezende Aguiar


