sábado, 14 de fevereiro de 2026

            

 Escuta, Validação e História de Vida

Há anos eu escuto as mesmas histórias dos meus sogros. Fingir que é a primeira vez virou um gesto consciente, uma maneira de validá-los como sujeitos e dar existência àquilo que para eles ainda precisa ser dito. No processo de envelhecimento, o idoso busca rever a sua própria história de vida contando por diversas vezes a mesma história, revendo o seu passado e revisitando a sua trajetória de vida.

A repetição pode vir como uma abertura para que o processo de elaboração aconteça. Quando os meus sogros repetem as mesmas histórias, trata-se de um convite do inconsciente para trabalhar suas memórias e ressignificar suas vivências passadas; é um bom caminho para lidar com o processo de finitude e elaboração daquilo que ainda precisa ser dito e ressignificado.

Erikson, na oitava fase do desenvolvimento psicossocial que acontece na velhice, trata de: Integridade x Desespero, onde o idoso busca o seu processo de integridade do ego. É quando o idoso olha para a sua própria história e, de certa forma, reconhece em sua trajetória de vida seus erros e acertos, tem uma boa aceitação e convive bem com isso; e não tem nada a ver com ter vivido uma vida perfeita, trata-se de aceitação de erros e acertos como parte de sua história, gerando sabedoria, serenidade e menos medo da morte. Já o desespero aparece quando a pessoa sente sentimentos de arrependimentos excessivos, que perdeu muito tempo da sua vida ou que não há mais tempo para nada, trazendo um aumento do medo de morrer. Oferecer ao idoso a nossa escuta de forma genuína gera um ambiente de suporte emocional, e permitir ao idoso falar como se fosse a primeira vez proporciona a ele existir como sujeito e trazer à tona o que ainda precisa ser dito, além de validá-lo como sujeito.

Essas revisões das falas e histórias, como um trabalho psíquico, atuam como uma ferramenta que permite integrar sua existência, não porque necessariamente esqueceram o que contaram, e sim porque estão repetindo como uma possível tentativa de integrar esses fragmentos de histórias como parte de um todo da sua própria existência. Essas falas que retornam ao passado e histórias já contadas podem reconciliar conflitos internos antigos e, ao contar de novo, a história se abre a uma nova oportunidade para um novo sentido, ou para dar uma nova cor a talvez um discurso que antes era doloroso (como, por exemplo, um luto), possibilitando transformar o desespero em integridade, como proposto por Erik Erikson. Não se trata apenas de histórias repetidas; é uma forma de ressignificação do que ainda existe ali. Quando eu ofereço a minha escuta, vem junto um arrimo para que suas narrativas de vida alcancem sua integridade; logo, a repetição vira sentido dentro de uma existência.


Camila Rezende Aguiar

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Transformando Experiências Diárias em Pequenos Textos


Esses dias fui na dentista e no momento em que eu aguardava eu uma discussão calorosa com um paciente disse: uma coisa que eu aprendi foi me defender num tom voltado para o limite dela em relação ao outro. Eu fiquei ruminando por dias aquela frase, e por algum momento aquela frase dita por ela se tornou minha, mas não em um tom de afirmação com foi dito pela dentista e sim como uma dúvida. E de uma frase: "Uma coisa que sei bem, é me defender" dentro de mim se converteu em: Será que eu sei me defender? Eu sei me defender? Sei colocar para o outro de maneira respeitosa seus limites? No seu convívio familiar você consegue dizer sobre os seus limites? No seu trabalho você consegue deixar claro o que é seu e o que não é? E em uma conversa, você consegue expor ao outro até onde ele pode ir respeitando os seus limites? A Teoria "Na obra 'A Negação' (1925), Freud nos explica que o Ego possui a função primordial de julgar o que deve ou não fazer parte de nós. É um processo quase biológico de decisão: Introjetar: É o movimento de 'comer', de colocar para dentro o que nos agrada e faz sentido. Expulsar: É o movimento de 'cuspir', de rejeitar o que é estranho, ameaçador ou invasivo. Esse mecanismo funciona como uma fronteira psíquica. O Ego filtra os estímulos externos para que o mundo não invada o nosso interior de forma traumática. Saber se defender, portanto, não é apenas uma reação social, mas uma função vital de preservação: é o nosso Ego decidindo o que permitimos que nos atravesse e o que precisamos manter do lado de fora para manter a nossa integridade."

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Por que somos infelizes?


 O "babado" que Freud explicou há 100 anos

Você já se perguntou por que, mesmo com tantos avanços tecnológicos e mais conforto no mundo, ainda assim somos ansiosos e, por diversas vezes, infelizes?

Recentemente, eu li o livro do "pai" Freud, O Mal-estar na Civilização, e tudo fez sentido: boooom! 🤯 Vamos lá, que é babado!

O Contrato Invisível

O pai Freud nos diz que o motivo da nossa infelicidade é devido a um contrato social "invisível", onde trocamos a nossa felicidade por segurança. Como assim? Me explica melhor?

Existem forças dentro de nós... a pulsão de morte. Ela tem a ver com agressão e destruição e faz parte da nossa natureza. Foi preciso criar a civilização, senão a vida seria um caos e ninguém iria sobreviver.

O "Toma lá, dá cá" da Sociedade

Vamos lá... trazendo isso para o nosso dia a dia: para vivermos em sociedade, precisamos enterrar os nossos instintos mais primitivos, como:

  • A vontade de mandar alguém para o PQP;

  • Evitar a raiva contra o seu colega no trabalho;

  • Aquele desejo mais proibido... (hummmm, sei! 😏).

Não podemos ser "amigos do fim", não podemos sair agredindo todo mundo e muito menos realizar todos os nossos desejos, não é mesmo?

A Grande Revelação: Para onde vai a raiva?

Mas essa pulsão de agressividade e destruição, quando não podemos botar para fora (ou no outro), para onde ela vai? Desaparece?

Senta que é babado! A gente introjeta! Coloca para dentro de nós e vira CULPA.

Esse é o preço, minha senhora... Você entra nessa sociedade "segura" e, em troca, entrega o quê? A sua felicidade plena. Não tem como fugir, é um "toma lá, dá cá"!

Mas a pergunta que fica é: até que ponto essa troca vale a pena? No fim das contas, você se sente mais seguro ou apenas mais infeliz e reprimido? 

Quando a transferência acontece


Uma experiência a partir da clínica

A ligação

Uma amiga da faculdade me fez uma ligação para compartilhar uma situação que a incomodou, vivida no consultório de terapia no final do ano.

Ela me contou que decidiu presentear sua psicóloga e resolveu entregar pessoalmente o presente na sua última sessão do ano.

Quando Ana entregou o presente, a psicóloga reagiu dizendo:
“Muito obrigada pelo seu presente, ainda que seja por transferência”, disse ela em um tom humorado.

Na psicanálise, o processo de transferência acontece quando sentimentos, afetos e expectativas que pertencem a relações importantes da história do sujeito aparecem na relação com o analista.

O incômodo

A Ana me disse que, a partir disso, ficou extremamente desconfortável, com dúvidas e até chegou a questionar as falas da psicóloga.

Descreveu que, no ato de entregar o presente, através de um abraço, ficou visivelmente desconfortável, restando um abraço solto, frouxo.

Na ligação, Ana, visivelmente incomodada com a situação, repetia por diversas vezes:
“Meu presente foi genuíno. Como ela pode me dizer isso?”

Ana ainda não tinha me dito a quem seria essa transferência.
Eu tinha um palpite de quem poderia ser, mas eu não disse nada.

Em um determinado momento, que pareceu um ato falho, Ana diz assim:
“Camila, se eu quisesse comprar um presente para a minha mãe, teria comprado e entregue à minha mãe. Eu quis dar pra ela, foi genuíno.”

Eu disse para Ana que, mesmo sendo um presente dado em um momento de transferência, ele continua sendo genuíno.

Mas ela não aceitava muito bem e negava insistentemente, demonstrando uma forte resistência.

A lembrança

Ao ouvir tudo isso, em um determinado momento da ligação, em um tom de urgência, interrompi Ana e disse que aquilo me fez lembrar de algo que aconteceu comigo.

No final do ano eu senti uma imensa vontade de presentear a minha analista.

Pensei por dias com o que eu poderia lhe presentear, mas eu não sabia do que ela gostava.

Enfim, não consegui comprar nada porque, no fundo, eu queria dar a ela algo que eu mesma produzisse ou criasse.

Eu até pensei em crochê, mas logo em seguida desisti, pensando que talvez não faria sentido.

Mas isso ficou dentro de mim, mal resolvido e não elaborado.

A blusa de crochê

Fui me arrumar para a próxima sessão e escolhi, de forma inconsciente, uma blusa de crochê que minha mãe fez pra mim e que, por sinal, eu gosto muito dessa blusa.

Durante a sessão, minha analista, muito observadora, me disse:
“Que blusa bonita.”

E eu meio que imediatamente disse:
“É de crochê, minha mãe que fez pra mim.”

Parece que, naquele momento, eu conectei o objeto ao afeto.

Daí minha analista me fez uma simples pergunta:
“Você sabe fazer crochê?”

De início eu respondi que sabia alguns pontos, mas tinha uma certa dificuldade por ser canhota.

Terminamos a sessão, mas aquela pergunta me atravessou e ficou dentro de mim por vários dias.

O algoritmo

Logo após a sessão, iniciei pesquisas na internet sobre crochê.

Daí meu algoritmo entendeu tudo.
Só dava crochê nas minhas redes sociais.

O algoritmo é igual ao inconsciente.
Ele não perdoa.

Fica ali operando embaixo da superfície, sem mesmo percebermos, moldando nossas escolhas, operando como um reservatório dos nossos desejos, memória e impulsos.

A saga do crochê

Por fim, fui até uma loja de aviamentos e comprei os materiais para fazer o crochê.

Passei longos dias extremamente focada em fazer crochê, desde a hora que eu acordava até exausta para dormir.

Fiquei três dias completamente por conta de fazer o crochê.

Não fui na academia, não li os meus livros e não estudei conforme eu havia me programado para essas férias.

De volta à ligação

E, no momento da ligação com Ana, eu estava fazendo crochê.

Falei:
“Ana, passei esses dias pensando em crochê, fui na análise de crochê, minha analista me nota e agora, em ligação com você, eu estou fazendo crochê. Sabe por quê? Porque quem me ensinou a fazer crochê foi a minha mãe, e as coisas que eu mais gosto que minha mãe já me deu são de crochê.”

Disse isso para ela rindo, porque, nesse momento, eu estava reconhecendo o meu processo de transferência.

O reconhecimento

Nesse momento, Ana também, em um tom de urgência, me interrompe e me diz:
“Camila, você não vai acreditar. Sabe qual foi o presente que eu dei para a minha psicóloga?”

Um creme hidratante Lily, que é muito conhecido pelo seu ótimo cheiro.

E ela completa:
“Agora estou me lembrando que toda vez que eu entro no quarto da minha mãe, lá tem um cheiro maravilhoso.”

Nesse momento, quase que instantaneamente, ao reconhecermos o nosso processo transferencial, demos longas e largas risadas.

Afinal de contas, conectar um assunto tão profundo, que é o processo de transferência, com algo vivenciado por nós mesmas, de fato, é magnífico.



Camila Rezende.

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