Uma experiência a partir da clínica
A ligação
Uma amiga da faculdade me fez uma ligação para compartilhar uma situação que a
incomodou, vivida no consultório de terapia no final do ano.
Ela me contou que decidiu presentear sua psicóloga e resolveu entregar
pessoalmente o presente na sua última sessão do ano.
Quando Ana entregou o presente, a psicóloga reagiu dizendo:
“Muito obrigada pelo seu presente, ainda que seja por transferência”, disse ela
em um tom humorado.
Na psicanálise, o processo de transferência acontece quando sentimentos, afetos
e expectativas que pertencem a relações importantes da história do sujeito
aparecem na relação com o analista.
O incômodo
A Ana me disse que, a partir disso, ficou extremamente desconfortável, com
dúvidas e até chegou a questionar as falas da psicóloga.
Descreveu que, no ato de entregar o presente, através de um abraço, ficou
visivelmente desconfortável, restando um abraço solto, frouxo.
Na ligação, Ana, visivelmente incomodada com a situação, repetia por diversas
vezes:
“Meu presente foi genuíno. Como ela pode me dizer isso?”
Ana ainda não tinha me dito a quem seria essa transferência.
Eu tinha um palpite de quem poderia ser, mas eu não disse nada.
Em um determinado momento, que pareceu um ato falho, Ana diz assim:
“Camila, se eu quisesse comprar um presente para a minha mãe, teria comprado e
entregue à minha mãe. Eu quis dar pra ela, foi genuíno.”
Eu disse para Ana que, mesmo sendo um presente dado em um momento de
transferência, ele continua sendo genuíno.
Mas ela não aceitava muito bem e negava insistentemente, demonstrando uma forte
resistência.
A lembrança
Ao ouvir tudo isso, em um determinado momento da ligação, em um tom de
urgência, interrompi Ana e disse que aquilo me fez lembrar de algo que
aconteceu comigo.
No final do ano eu senti uma imensa vontade de presentear a minha analista.
Pensei por dias com o que eu poderia lhe presentear, mas eu não sabia do que
ela gostava.
Enfim, não consegui comprar nada porque, no fundo, eu queria dar a ela algo que
eu mesma produzisse ou criasse.
Eu até pensei em crochê, mas logo em seguida desisti, pensando que talvez não
faria sentido.
Mas isso ficou dentro de mim, mal resolvido e não elaborado.
A blusa de crochê
Fui me arrumar para a próxima sessão e escolhi, de forma inconsciente, uma
blusa de crochê que minha mãe fez pra mim e que, por sinal, eu gosto muito
dessa blusa.
Durante a sessão, minha analista, muito observadora, me disse:
“Que blusa bonita.”
E eu meio que imediatamente disse:
“É de crochê, minha mãe que fez pra mim.”
Parece que, naquele momento, eu conectei o objeto ao afeto.
Daí minha analista me fez uma simples pergunta:
“Você sabe fazer crochê?”
De início eu respondi que sabia alguns pontos, mas tinha uma certa dificuldade
por ser canhota.
Terminamos a sessão, mas aquela pergunta me atravessou e ficou dentro de mim
por vários dias.
O algoritmo
Logo após a sessão, iniciei pesquisas na internet sobre crochê.
Daí meu algoritmo entendeu tudo.
Só dava crochê nas minhas redes sociais.
O algoritmo é igual ao inconsciente.
Ele não perdoa.
Fica ali operando embaixo da superfície, sem mesmo percebermos, moldando nossas
escolhas, operando como um reservatório dos nossos desejos, memória e impulsos.
A saga do crochê
Por fim, fui até uma loja de aviamentos e comprei os materiais para fazer o
crochê.
Passei longos dias extremamente focada em fazer crochê, desde a hora que eu
acordava até exausta para dormir.
Fiquei três dias completamente por conta de fazer o crochê.
Não fui na academia, não li os meus livros e não estudei conforme eu havia me
programado para essas férias.
De volta à ligação
E, no momento da ligação com Ana, eu estava fazendo crochê.
Falei:
“Ana, passei esses dias pensando em crochê, fui na análise de crochê, minha
analista me nota e agora, em ligação com você, eu estou fazendo crochê. Sabe
por quê? Porque quem me ensinou a fazer crochê foi a minha mãe, e as coisas que
eu mais gosto que minha mãe já me deu são de crochê.”
Disse isso para ela rindo, porque, nesse momento, eu estava reconhecendo o meu
processo de transferência.
O reconhecimento
Nesse momento, Ana também, em um tom de urgência, me interrompe e me diz:
“Camila, você não vai acreditar. Sabe qual foi o presente que eu dei para a
minha psicóloga?”
Um creme hidratante Lily, que é muito conhecido pelo seu ótimo cheiro.
E ela completa:
“Agora estou me lembrando que toda vez que eu entro no quarto da minha mãe, lá
tem um cheiro maravilhoso.”
Nesse momento, quase que instantaneamente, ao reconhecermos o nosso processo
transferencial, demos longas e largas risadas.
Afinal de contas, conectar um assunto tão profundo, que é o processo de
transferência, com algo vivenciado por nós mesmas, de fato, é magnífico.
Camila Rezende.

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